Compensar demanda de petróleo com captura de carbono demandaria 26 mil TW/h

Maria Clara Machado

Autor

Maria Clara Machado

Publicado

23/Nov/2023 16:31 BRT

As empresas de óleo e gás precisam “abandonar a ideia que quantidades implausíveis de captura de carbono são a solução” para frear o aquecimento global. Essa é a conclusão do relatório divulgado nesta quarta-feira, 22 de novembro, pela Agência Internacional de Energia (AIE) que calcula que, para conciliar o aumento de temperatura em 1,5°C com a demanda atual de petróleo, seria necessária a captura de 32 bilhões de toneladas de carbono, o que consumiria 26 mil TW/h de energia até 2050 – mais do que a demanda global por eletricidade em 2022.

Ainda seriam necessários investimentos anuais de US$ 3,5 trilhões por ano até 2050, montante equivalente aos lucros de toda a indústria nos últimos anos. “A captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) é uma tecnologia essencial para alcançar emissões líquidas zero em certos setores e circunstâncias, mas não é uma forma de manter o status quo”, diz o relatório da AIE.

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O estudo aborda as ameaças e oportunidades da indústria de óleo e gás no contexto da transição energética e avalia que as empresas de petróleo estão tendo um “papel marginal” nos esforços para uma matriz energética mais limpa. “Empresas de óleo e gás respondem por 1% dos investimentos globais em energia renovável, e 60% deste total vem de apenas quatro companhias”, informa o relatório.

Demanda por petróleo pode diminuir em até 75%

Segundo a AIE, caso os países cumpram a totalidade de seus acordos de energia e clima, a demanda por óleo e gás deve cair 45% até 2050, considerando os níveis atuais. “Investimentos em campos existentes e até em alguns novos serão necessários, mas não há necessidade de mais exploração”, segundo o estudo.

Para atingir as emissões zero, seria necessário diminuir o consumo em 75%. Nesta hipótese, a demanda por petróleo seria tão baixa que inviabilizaria novas vendas de petróleo e gás convencionais a longo prazo. “Nas emissões líquidas zero, o desenvolvimento de novos projetos enfrenta grandes riscos comerciais”, diz o relatório. A exploração de novos campos também poderá pressionar o aumento de temperatura para além de 1,5°C.

Mesmo assim, em um cenário de aquecimento limitado a 1,5°C, seriam necessários 24 milhões de barris de óleo por dia em 2050, dos quais 75% seriam utilizados na indústria petroquímica, sem a queima do petróleo. Em gás natural, 950 bilhões de m³ de gás natural continuariam necessários, sobretudo para a produção de hidrogênio.

Oportunidades para a indústria de óleo e gás 

Segundo a AIE, em um mundo com matriz energética descarbonizada, 30% da energia será gerada por tecnologias que têm sinergia com a indústria de óleo e gás, como hidrogênio, eólicas offshore e biocombustíveis.

Para aproveitar esta oportunidade, a indústria petrolífera precisaria alterar o perfil de seus investimentos. Em 2022, companhias de petróleo investiram cerca de US$ 20 bilhões em energia renovável, o que equivale a cerca de 2,5% dos investimentos totais. Para cumprir o Acordo de Paris, seria preciso destinar metade dos investimentos a energia renovável até 2030. Por outro lado, os investimentos atuais de US$ 800 bilhões no setor de óleo e gás devem corresponder à metade do necessário neste contexto.