A complexidade crescente da operação do sistema elétrico brasileiro, com ‘vales de carga’ cada vez mais profundos, torna a discussão de implementar armazenamento “urgente”, de acordo com o diretor de Operação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Christiano Vieira.
Segundo ele, a flexibilidade do armazenamento deve vir de forma complementar, uma vez que não há novos grandes reservatórios de hidrelétricas em construção.
“Eu conto com bateria BESS? Sim. Hidrelétrica reversível? Também. Não é uma ou outra, é uma e outra, com diferentes períodos de implementação, diferentes atributos. As duas tecnologias de armazenamento são necessárias para essa realidade que a gente está vivendo na operação”, destacou o diretor do ONS durante o evento da ISA Energia.
Vieira ressaltou que o sinal de preço também se torna fundamental, ainda mais quando a micro e minigração distribuída (MMGD) podem crescer, em um cenário conservador, a 7 GW por ano até 2029. Com isso, todo o vale da carga passará a ser atendido pela MMGD. “Não podemos chegar a essa situação, porque se você chegar nesse ponto, você perde a controlabilidade do sistema. Você vai ter toda a carga atendida por uma fonte não despachável e não controlável”, explicou Vieira.
A recomendação da operação
Mesmo com novos investimentos em transmissão, o diretor do ONS alerta que isso não basta. Como a geração distribuída cresce fora do alcance do despacho centralizado, será preciso coordenar melhor os “dois mundos”: a rede de transmissão e a rede de distribuição.
Melhorar o sinal de preço seria outra opção para ajudar a mitigar os desafios. O excesso de oferta eólica e solar resulta em preços mais baixos para a energia dessas fontes, o que, segundo o diretor do ONS, eventualmente faz com que o investidor reduza seu interesse no segmento.
O problema é que esse mesmo investidor percebe que, em MMGD, a tarifa não está aumentando, e investe mais na modalidade.
“Enquanto um coloca o pé no acelerador, o outro freia. Isso não pode ser assim e também traz dificuldades para a operação”, afirmou Vieira. Segundo ele, essa dinâmica complica o trabalho do ONS, que precisa controlar a rede pela manhã e novamente no fim da tarde e início da noite.
Incentivos e a missão da regulação
Com relação às tecnologias para flexibilidade da operação e armazenamento, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem avançado na sua regulamentação, mas sempre tentando evitar que o custo fique com o consumidor.
Hoje, o tema está sendo tratado no âmbito de tomadas de subsídios e consultas públicas, na busca por entender como aprimorar parâmetros e métricas regulatórias no sentido de aproximar a operação, o planejamento, a regulação, e ajudar na melhor solução para o sistema.
“Nós temos uma consulta sobre resiliência de redes aberta sob a minha relatoria, nós temos tomada de subsídio de melhorias e aprimoramentos na busca de eficiência das transmissoras, como um todo, e nós temos também a própria discussão com a diretoria dos sistemas de armazenamento, como o BESS. São várias iniciativas da Aneel de alcançar a melhor operação, com o melhor custo, com a melhor eficiência possível”, explicou o diretor da Aneel Ivo Sechi Nazareno.
Na visão dele, as novas tecnologias ampliam a eficiência do setor, já que equipamentos que no passado eram caros hoje se tornaram mais acessíveis, enquanto as linhas de transmissão continuam exigindo altos investimentos e gerando custos socioambientais relevantes.