Com industrialização, PwC prevê aumento da carga e viabilidade para novos projetos de geração

Maria Clara Machado

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Maria Clara Machado

Publicado

15/Mai/2024 17:32 BRT

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Empresas

Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, e que com grande potencial para expansão, o Brasil deve atrair investimentos de indústrias eletrointensivas interessadas em descarbonizar a sua produção. “Daqui três, cinco anos, eu vejo a gente com um crescimento de demanda muito forte. A gente tem energia sobrando e barata, o mercado livre, enquanto lá fora você ainda tem uma pressão muito grande. A maioria dos lugares não tem esse potencial que a gente tem de trazer um investimento e oferecer boas condições”, diz o sócio da PwC Brasil Adriano Correia, que conversou com a MegaWhat junto do sócio e líder da regional Rio de Janeiro da PwC, Rafael Alvim.

No entanto, com a atual sobra e preços baixos de energia, novos projetos de geração renovável estão desacelerados no país, o que já levou fabricantes de equipamentos a anunciarem pausas em suas linhas de produção.

Para os executivos da PwC, a situação pode ser revertida e é hora de o Brasil pensar em como desenvolver a sua demanda interna de forma a aproveitar as potencialidades de geração renovável, atraindo indústrias eletrointensivas e indo além do aumento de carga por crescimento econômico.

Um dos setores com boas perspectivas é o de data centers. “A Microsoft anunciou que vai fazer US$ 100 bilhões de investimentos em data centers nos próximos anos. É gigantesco. Acho que existe um apelo muito grande para o Brasil entrar nessa onda de investimentos. Talvez faltem os incentivos, as estruturas para você facilitar e trazer esse investimento de forma mais fácil”, disse Alvim. Segundo ele, a PwC está assessorando um cliente com investimentos de “bilhões” no país atraído pela matriz renovável.

Para Correia, o aumento na demanda deve, inclusive, viabilizar novos projetos de geração renovável no país, abrindo espaço até mesmo para a discussão sobre novas hidrelétricas. “A tecnologia avançou bastante nos últimos anos, o impacto ambiental das hidrelétricas é muito menor. Será que não estaria na hora de voltar a pensar em projetos maiores e não ficar focado exclusivamente em solar e eólico?” questiona o executivo, ponderando que, com o aumento da carga e planejamento adequado, haveria “espaço para todo mundo ter crescimento”.

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Em relação à geração hídrica, Correia avalia que também é preciso rediscutir o papel da fonte no sistema brasileiro em função da estabilidade que a ela proporciona, bem como em soluções de armazenamento de energia, tanto em hidrelétricas, como em baterias ou hidrogênio. “Se a gente quiser ter um custo otimizado no sistema, a gente precisa ter alguma solução que envolva bateria para racionalizar o investimento que é feito em eólica e solar”, disse.

Para trazer os investimentos em projetos eletrointensivos que podem aumentar a carga, Adriano Correia avalia que a movimentação de autoridades brasileiras no exterior é positiva e que o país deve aproveitar a presidência do G20 neste ano e a reunião da COP30 em Belém, em 2025, para se colocar em evidência.

“Acho que ainda tem um espaço para a gente pensar de forma mais estruturante como é que vai funcionar isso, ou seja, qual seria o melhor modelo tributário para incentivar essas empresas a virem para cá, incentivos até em termos de infraestrutura para montar, por exemplo, um data center. A própria qualificação de mão de obra eu também acho que é um tema super relevante que a gente precisa ter atenção, qualificar pessoas para operarem nesse modelo novo com energia renovável”, pondera.

Já a indústria de hidrogênio para exportação, que ainda tem custos altos, ainda deve demorar mais para deslanchar, na avaliação de Adriano Correia. Mesmo assim, ele se mostra otimista: “Eu acho que em algum momento a gente vai resolver o assunto de custo do hidrogênio, como foi resolvido no solar há dez anos – e talvez a gente não precise esperar dez anos, a evolução tem sido mais rápida. Mas se você pensar em uma combinação aqui de data center mais projetos de hidrogênio, já seria um impacto bem interessante na demanda”, disse.

Mercado de carbono

Outra oportunidade para o Brasil, segundo o sócio da PwC Brasil, é o mercado de carbono – que, na avaliação do consultor, não está se desenvolvendo no ritmo adequado. “Precisamos fazer com que esse tema ande. Quanto mais tempo a gente perde, mais tempo mais a gente vai deixar essa onda passar, até porque a gente sabe com experiência de outros países que o mercado de carbono demora para ter uma evolução de preço”, disse.

Para ele, o país deve aproveitar as exigências da União Europeia em relação ao mecanismo de ajuste fronteiriço de carbono (Cbam, na sigla em inglês), que já está em vigor em fase transicional e que a partir de 2026, na fase definitiva, exigirá certificação no modelo europeu sobre a pegada de carbono dos produtos importados ao bloco. Os produtos serão taxados conforme suas emissões, e podem ter desconto caso já tenham compensado parte do carbono.

“A gente vai ter que se estruturar melhor. Já que a gente vai ter que montar estruturas aqui para atender as regras do Cbam, vamos pelo menos tentar, de uma forma estruturada, tomar benefício disso também no mercado local e incentivar que o mercado de carbono cresça”, incentivou Adriano.

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