Óleo e gás

Petrobras investe em nova tecnologia para reduzir consumo de energia e pegada de carbono

Hisep, que separa e injeta gás nos poços sem passar pela plataforma na superfície, será aplicado em Mero-3 com intenção de ser reproduzido em outros ativos

FPSO Marechal Duque de Caxias, que estará conectado ao sistema Hisep
FPSO Marechal Duque de Caxias, da Petrobras, que entrou em operação em outubro, no campo de Mero, no pré-sal. Produção da unidade é uma das que será leiloada pela PPSA.

A Petrobras desenvolveu a tecnologia Hisep, que pretende reduzir cerca de 30% da pegada de carbono das operações, com um consumo de energia entre 26% e 28% menor. Ao separar e injetar o gás rico em carbono logo após a sua extração, ainda no fundo do mar, a tecnologia evita processos como despressurização e repressurização na superfície para envio e injeção no fundo do mar.

“E isso impacta em emissão porque a geração hoje vem de um sistema que queima gás”, explica Fábio Passsarelli, consultor Sênior do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes).

Ao evitar que a separação entre o petróleo e gás associado seja feita na superfície, o Hisep também deve levar a uma simplificação das estruturas de FPSO. Com plataformas menores, deve haver redução no Capex (investimento inicial) e no tempo de produção de óleo dos projetos. “Essa superfície vai poder ser menor sem reduzir a produção de óleo”, diz Passarelli.

Em janeiro de 2024, a Petrobras e a TechnipFMC assinaram contrato para desenvolvimento e implantação de um piloto do Hisep em Mero 3, localizado no bloco de Libra, no pré-sal. Atualmente, as empresas estão na fase de construção de protótipo em escala comercial para operar num ambiente final, que vai ser o Mero 3, conectado ao FPSO Marechal Duque de Caxias, que deve entrar em operação ainda em 2024.

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Segundo a vice-presidente executiva de Novas Energias da TechnipFMC, Luana Duffé, o Hisep terá capacidade de processamento de 6 milhões de m³ de gás por dia. “E o peso do Hisep é de cerca de duas mil toneladas. Um sistema para processar 6 milhões de m³ na plataforma é quase três vezes o tamanho do Hisep”, diz a executiva. Segundo ela, o processo se torna mais eficiente porque o gás ainda está na forma densa. “O comportamento é quase como o de líquido, você trabalha numa fase muito mais compacta”, explica.

A separação e injeção do gás natural é necessária porque, no pré-sal (assim como na maior parte dos reservatórios offshore no Brasil), o petróleo é extraído dos poços junto com o gás natural. E, em algumas formações, é alto o nível de gás carbônico associado ao gás natural – em Libra, por exemplo, o teor médio de CO2 é superior a 40%. A separação dos gases para aproveitamento do gás natural é cara, e por isso a mistura de gases é reinjetada nos poços. O processo permite, ainda, que haja melhoria no fator de recuperação de petróleo. Saiba mais sobre a reinjeção de gás.

Padronização para reprodução em outros ativos

O Hisep foi desenvolvido pela Petrobras no Cenpes, no Rio de Janeiro, e é patenteado pela Petrobras. Segundo Passarelli, a estatal começou a estudar a ideia de um sistema como o Hisep entre 2013 e 2014. Em 2015, começou a incluir a indústria nas discussões. “Não adianta ter uma ideia sensacional se ela não é comercial, não é executiva. Então a gente trouxe a indústria desde o comecinho”, diz o consultor.

Em janeiro de 2024, a Petrobras e a TechnipFMC assinaram o contrato, após licitação. A expectativa é que a instalação comece em 2027 e que o comissionamento e operação ocorram em 2028.

Luana Duffé, da TechnipFMC, explica que a ideia é padronizar o máximo possível, para reduzir custos e tempo de implantação em outros campos. “Nosso objetivo não é entregar um projeto, é entregar um produto”, diz a executiva.

Ao longo de quatro anos, o projeto de Mero deve receber mais de US$ 1 bilhão em investimentos das empresas que fazem parte do consórcio de Libra (Petrobras, operadora, tem 38,6%. As parceiras são a Shell, com 19,3%; TotalEnergies, com 19,3%; CNODC, 9,65%; CNOOC, com 9,65%, e PPSA, com 3,5%). O investimento é feito pela cláusula de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) da Agência Nacional do petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Não há levantamento sobre percentual de conteúdo local, pois não havia requerimento específico. Mas o projeto de Mero envolverá a planta da TechnipFMC no Rio de Janeiro, para fabricação de equipamentos submarinos. Os sistemas serão integrados e testados no centro de tecnologia da empresa, também no Rio de Janeiro, e navios da frota própria da TechnipFMC serão utilizados para instalar o sistema. “Todas as nossas fábricas e ativos no Brasil vão ser envolvidos. Todo o time de gerenciamento de projetos e praticamente toda a engenharia estão aqui”, diz Luana Duffé.

Parte das pesquisas é realizada na Universidade Federal de Itajubá (Unifei), que recebeu um laboratório que reproduz as condições do pré-sal em relação a poços, pressão, concentração de CO2, entre outros fatores. O investimento foi de R$ 330 milhões, pela cláusula de PD&I do Consórcio de Libra. “E não é uma infraestrutura do Hisep, é uma infra do Brasil. Qualquer empresa pode ir lá e desenvolver tecnologia”, diz Passarelli. Para o Hisep, a estrutura foi utilizada para testes das bombas da TechnipFMC com gás rico (gás natural misturado ao CO2).

O projeto também contará com um digital Twin que fará a leitura de mais de 200 sensores submarinos. Segundo Duffé, o digital Twin possibilitará otimização do processamento, performance e manutenção preventiva dos sistemas.

Luana Duffé e Fábio Passarelli concederam entrevista à MegaWhat durante a ROG.e 2024.