
Por: Rodolfo Pinto*
Transformar o sol em energia acessível, econômica e descentralizada é mais do que uma solução tecnológica, é uma estratégia nacional. A geração distribuída (GD) de energia solar fotovoltaica, modelo em que consumidores produzem sua própria eletricidade com painéis solares instalados em casas, empresas ou terrenos, vem ganhando força no Brasil como uma alternativa sustentável e eficiente ao sistema tradicional de fornecimento elétrico.
Nos últimos anos, a GD tem se consolidado como um caminho promissor para empresas brasileiras que buscam reduzir custos, ampliar a previsibilidade de gastos e alinhar suas operações a práticas mais sustentáveis. Impulsionada pelo avanço tecnológico e pela busca por alternativas à matriz elétrica centralizada, essa modalidade já começa a redesenhar o setor energético e a ampliar o acesso à energia limpa para mais consumidores.
Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), a geração distribuída deve adicionar mais de 13,2 gigawatts (GW) de potência instalada ao longo de 2025, elevando o total acumulado no país para cerca de 64,7 GW. Esse volume equivale a mais de quatro usinas de Itaipu e representa um crescimento superior a 25,6% em relação à capacidade atual, de 51,5 GW. Boa parte desse avanço é puxada pelos setores comercial e industrial, que enxergam na energia solar uma fonte de economia e autonomia energética.
Além do impacto direto nas contas de luz, com potencial de economia líquida de até R$ 84,9 bilhões até 2031, segundo estudo promovido pela entidade, a geração distribuída também reduz perdas na transmissão ao produzir energia perto do ponto de consumo. Para grandes consumidores, essa economia pode chegar a 5,6% no valor mensal da fatura, segundo a consultoria Volt Robotics. Trata-se de um alívio relevante em um cenário de tarifas em alta e pressão inflacionária.
Apesar dos avanços, a democratização da energia solar ainda enfrenta obstáculos. Um dos principais gargalos está na infraestrutura de transmissão. Em diversas regiões, a rede elétrica não tem capacidade para absorver o volume crescente de energia gerado pelos sistemas solares. Uma matéria da Reuters publicada no ano passado alertou que projetos eólicos e solares vêm sendo parcialmente desligados por falta de escoamento, mesmo com a demanda por energia em alta.
Outro desafio é o custo inicial de instalação, que ainda representa uma barreira para residências e pequenos negócios, especialmente em áreas de menor renda. Também faltam programas estruturados de financiamento, linhas de crédito acessíveis e incentivos fiscais que tornem a energia solar uma realidade para quem mais precisa.
Para superar esses entraves, é preciso articulação entre governos, empresas e sociedade. A criação de comunidades solares, que permitem o compartilhamento de sistemas fotovoltaicos entre vários consumidores, é um caminho viável. Parcerias público-privadas para instalação de usinas em áreas urbanas e prédios públicos também podem beneficiar escolas, hospitais e pequenas empresas. O avanço de tecnologias de armazenamento de energia oferece mais uma alternativa para aliviar a sobrecarga da rede e ampliar a autonomia dos consumidores.
Em um cenário global de transição energética, a geração distribuída representa mais do que economia. É uma plataforma para inclusão, sustentabilidade e desenvolvimento. Se o Brasil deseja se consolidar como referência internacional em energia limpa, o sol deve ser reconhecido como um ativo estratégico e parte central de um projeto nacional. A energia limpa e descentralizada precisa chegar a todos os telhados, bairros e regiões. E isso começa com decisões políticas e investimentos que coloquem o sol no centro da agenda. Afinal, o sol é para todos. E pode ser nossa maior força.
*Rodolfo Pinto é CEO da AXS Energia