Solucionar problemas climáticos deve anteceder exploração da Margem Equatorial

Poliana Souto

Autor

Poliana Souto

Publicado

15/Mai/2024 19:11 BRT

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Óleo e Gás

A solução de problemas envolvendo mudanças climáticas devem anteceder a exploração de petróleo e gás natural na Margem Equatorial, segundo Edvaldo Santana, diretor-executivo na Negócios de Energia Associados (Neal) e ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

“Se temos uma matriz elétrica tão limpa e renovável, por que temos que dar prioridade para um recurso não renovável e escasso? Um dia [essas explorações] se tornarão viáveis, mas não sei se é hoje, especialmente diante de todos os problemas climáticos que nós temos”, disse o executivo durante participação no evento Summit Valor Econômico Brasil-USA, realizado nesta quarta-feira, 15 de maio, em Nova York.

Para Santana, a defesa da exploração no local sob o argumento de que é necessário para o Brasil não voltar a ser importador de petróleo “é inválida”, visto que frente a isso existem os problemas causados pelas mudanças climáticas.

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 O executivo aproveitou ainda para destacar que o governo brasileiro poderia usar os dividendos da Petrobras para investir e assumir a liderança no processo de transição energética no mundo.

 "Poderiam ser alocados 20% dos dividendos todos os anos para financiar a transição energética. Nada melhor do que isso para dar uma notícia boa para o mundo inteiro, mas não foi feito. Apesar de todas essas vantagens, continuamos só correndo atrás", ponderou Santana.

Combustíveis e energia

Questionado sobre como o Projeto de Lei (PL) nº 4.516 de 2023, conhecido como Combustível do Futuro, pode ajudar a exportar biocombustíveis brasileiros para outros mercados, Edvaldo Santana disse que o texto poderá trazer contribuições, mas que é necessário pensar em como evitar um cenário de incentivos como os vistos para as renováveis, para não causar custos extras aos consumidores, principalmente os de baixa renda.

O executivo ainda destacou que o governo brasileiro poderia usar mecanismos para atrair investimentos de grandes companhias para a descarbonização. Como exemplo, citou o excedente de energias renováveis e que o governo brasileiro prefere exportar a energia gerada no Nordeste para o Sudeste e para o Sul, gastando cerca de R$ 10 bilhões por ano para construir linhas de transmissão, do que investir no Nordeste e atrair empresas e empregos na região.

Luisa Palácios, pesquisadora sênior do Centro de Política Global de Energia da Universidade de Columbia, também estava no painel e concordou com Santana, destacando que é preciso pensar em políticas que estimulem o investimento em tecnologias de baixo carbono, a alocação de recursos privados para mercados emergentes e na realocação de investimentos do petróleo para a energia verde.

Palácios também destacou que os países precisam refletir sobre como podem substituir as receitas e impostos dos combustíveis fósseis por energia renovável.

“Estamos vivendo um paradigma diferente sobre a energia e sobre como pensar nos impostos em cada país. Como um país se insere e compete no mercado global e como a relação entre os estados e o setor privado atua nesse mercado de energia. Quando falamos de proteção cambial, por exemplo, existem várias discussões sobre biocombustíveis, produto que tem uma tarifação alta em países desenvolvidos e, ao mesmo tempo, têm uma regulação clara no Brasil”, disse a pesquisadora.