Celso Cunha escreve - Angra 3: sua conclusão é urgente para o setor energético brasileiro

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Publicado

28/Jul/2023 16:15 BRT

Por: Celso Cunha* 

No âmbito do setor elétrico brasileiro, a conclusão da Usina Termonuclear Angra 3 (UTN Angra 3) tornou-se uma questão urgente. O Operador Nacional do Sistema (ONS), órgão responsável pela coordenação e controle do sistema elétrico nacional, já manifestou formalmente ao Ministério de Minas e Energia (MME) a importância estratégica da UTN Angra 3 nos estudos de planejamento da operação do Sistema Elétrico Brasileiro (SEB).

Entidades e autoridades do setor reforçam a importância do seguimento do projeto, e alertam que os custos associados ao abandono da iniciativa representam mais da metade dos investimentos necessários para a conclusão da usina. Esses custos, que seriam suportados pela União, pela Eletrobras e, em última instância, pelos consumidores e contribuintes, seriam inteiramente improdutivos. Por outro lado, o investimento na conclusão de Angra 3 proporcionaria ao sistema elétrico brasileiro 60 anos de energia limpa, com capacidade de 1.405 MW, livre de emissões de carbono, disponível por mais de 90% do tempo e operacional em qualquer condição climática. Além disso, o aumento mínimo nas tarifas de energia para os consumidores seria inferior a 1%.

O preço de venda da energia produzida por Angra 3, embora alto em termos absolutos, inclui os custos decorrentes de paralisações e atrasos causados por demoradas tomadas de decisão. A cada mês adicional no cronograma, o custo total do empreendimento aumenta em cerca de R$100 milhões, principalmente devido a despesas financeiras. No entanto, é importante ressaltar que, durante a recente crise hídrica, foram pagos valores de MWh que ultrapassaram R$ 2.000. Em comparação, o preço de venda da energia de Angra 3 pode não ser tão elevado em termos relativos.

A relevância de Angra 3 tem sido amplamente discutida pelos agentes do setor elétrico nacional, levando em consideração que a maioria das usinas hidrelétricas atualmente depende de chuvas, sendo tão intermitentes quanto as fontes solares e eólicas. Há um consenso no setor de que usinas térmicas a gás e nucleares são indispensáveis para garantir a confiabilidade energética. O aumento crescente da energia intermitente pode levar a grandes dificuldades para o ONS operar o Sistema Interligado Nacional (SIN), tanto do ponto de vista energético quanto elétrico.

Do ponto de vista do atendimento energético, a UTN Angra 3 apresenta características que a tornam um recurso fundamental para o mercado do subsistema Sudeste/Centro-Oeste e para o SIN como um todo. Sua capacidade instalada, alta disponibilidade e confiabilidade previstas a colocam como um dos principais recursos para atender a demanda dessas regiões. Além disso, sua produção direta no subsistema Sudeste/Centro-Oeste contribui para evitar congestionamentos nas interligações entre subsistemas. O baixo custo unitário variável previsto a torna uma das fontes prioritárias para despacho, seja por mérito econômico ou por razões de segurança eletroenergética, o que ajudará a reduzir os Custos Marginais de Operação (CMO) no futuro. A operação mensal de Angra 3 corresponde a apenas 0,6% da energia armazenável máxima do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o que, em base anual, representa um acréscimo de 7,2% da energia armazenável máxima dessa região.

Do ponto de vista elétrico, a UTN Angra 3 traz benefícios significativos para o desempenho da Rede Básica de fornecimento de energia para a área do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Ela permite manter a qualidade do suprimento em situações de parada das usinas Angra 1 e Angra 2, para recarga ou manutenção. Além disso, aumenta os limites de transmissão para a região, reduzindo a necessidade de uso de equipamentos de corte de carga em situações de contingências e de geração térmica quando as usinas Angra 1 e Angra 2 estão paradas ou as linhas de 500 kV estão indisponíveis. A UTN Angra 3 também melhora o perfil de tensão nas redes de 500 kV, 440 kV e 345 kV do Sudeste, redistribuindo o fluxo de energia para atender à carga localizada no Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Para além dos aspectos técnicos, a conclusão de Angra 3 também traz importantes benefícios socioeconômicos para o Brasil. O país possui a sexta maior reserva de urânio do mundo, conferindo uma vantagem estratégica de autossuficiência e abrindo oportunidades para a produção de energia elétrica doméstica e exportação de urânio concentrado. A exploração dessas reservas, juntamente com o domínio tecnológico no processo de fabricação de combustível nuclear e experiência na construção e operação de usinas nucleares, pode fortalecer a balança comercial brasileira e impulsionar o desenvolvimento tecnológico e industrial do setor nuclear nacional.

É importante ressaltar a geração de empregos e renda que a implantação de usinas nucleares proporciona. A construção de uma usina de 1.000 MW gera aproximadamente 1.200 empregos diretos, além de empregos indiretos e induzidos que somam mais de duas vezes o número de empregos diretos. Uma central nuclear com três usinas, como é o caso de Angra, pode gerar 7.200 empregos diretos e mais de 17.000 empregos indiretos e induzidos. Além disso, os investimentos realizados na construção das usinas têm efeitos multiplicadores na economia, reverberando no PIB nacional.

Outro benefício é a arrecadação de impostos proveniente das usinas nucleares, que contribuem para o desenvolvimento das comunidades locais por meio de programas sociais, culturais e de infraestrutura. A participação das usinas nucleares no desenvolvimento das regiões próximas, como Angra dos Reis, Paraty e Rio Claro, demonstra seu comprometimento com a responsabilidade social e o fortalecimento das comunidades.

Diante desses argumentos e considerando a importância estratégica da energia nuclear para o fortalecimento do Estado do Rio de Janeiro e do setor nuclear como um todo, é crucial contar com o apoio necessário para a conclusão de Angra 3. Em tempos de transição energética, é fundamental considerar a importância da fonte nuclear no planejamento energético nacional, levando em conta não apenas os interesses econômicos imediatos, mas também a segurança e confiabilidade do sistema elétrico e os benefícios socioeconômicos que essa indústria traz para o país.

*Celso Cunha é presidente da ABDAN, Associação Brasileira de Desenvolvimento de Atividades Nucleares.

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